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O Centenário da Imprensa de Castro

  Quis o bom fado que acompanha nossa querida Castro, ainda um oásis, “malgré tout”, neste trágico Brasil, tão castigado, tão chicoteado pelas forças do homem e da natureza, quis a fortuna que a comemoração do centenário da imprensa santanense recaísse numa fase do impresso, mercê do idealismo de Fidélis Franco Bueno e de outros companheiros. Seria doloroso para nós festejar a data num desses períodos trevosos em que a cidade, tradição de civismo, cultura, história, não possuísse um jornal, para escrever mos sobre. . . jornais. Bem me lembro, com tristeza, desses vácuos vergonhosos, quando, por exemplo, ao acolher dados para a minha biografia de Cornélio Pires (outro que vai comemorar cem anos em 1984), falei com o saudoso, o sábio, o honrado Urbano Borges Martins. Me disse que, quando Cornélio andou pelo Paraná, nós não tínhamos um semanário para registrar o fato. Foi em 1883 que Rocha Pombo fundou o “Eco dos Campos”, o primeiro órgão impresso, pois antes circularam folhas manuscritas, como se vê na bonita matéria sobre nossa imprensa, inserta no número especial do “'Castro- -Jornal", lançado em 1957. Ignoro o mês em que saiu o número inicial, já que até hoje não compulsei o “Eco”. Talvez exista algum exemplar em mãos de particulares, talvez haja na Biblioteca de Curitiba ou noutra do Paraná. Se tivéssemos pela História e pelas tradições o mesmo amor que se abrigava na alma de um notável alemão radicado em Castro, seria fácil manusear a coleção completa do jornalzinho de 1883. Ele, um desses bravos europeus que tanto fizeram pelo progresso santanense por puro idealismo, por gratidão à terra adotiva em que frutificou a semente do suor derramado honestamente, guardou todos os jornais antigos que lhe caíram às mãos. Julgando preservá-los, pensando que iria encontrar espíritos iguais ao seu, doou essa riqueza a um clube local, já que não existia biblioteca ou museu. Me informou, desolado, que um viajante do Rio, vendo que o material dava sopa, menosprezado num canto, levou tudo para sua terra, com permissão da diretoria ou sem ela. Coisas comuns em nossa pátria bem amada. .. Sem ter folheado o “Eco dos Campos" (seria “Eco” ou “O Eco”, com provável artigo?), nada posso escrever sobre seu conteúdo, seus colaboradores, seu noticiário, seus anúncios, seu aspecto gráfico. Não sei também qual tiragem, parece que foi ínfima, num município então pouco populoso. Mas posso, nesta humilde contribuição, trazer alguns subsídios para a comemoração da data, se é que se comemoram ainda os eventos do espírito numa época de império da tevê... Iniciamos com o próprio Rocha Pombo, grande historiador que residiu durante algum tempo em Castro, onde se casou com dona Carmelina, conforme diz Raimundo de Menezes em seu “Dicionário Literário”, sem dar o sobrenome da senhora. Em seu ensaio “O Paraná no Centenário” (22 edição, Rio, 1980, Livr. J. Olympio), no capítulo “Progresso Intelectual, Criação da Imprensa”, anota, após citar o primeiro jornal paranaense, “Dezenove de Dezembro”, surgido em 19 de dezembro de 1853, data da instalação da província do Paraná: “Em ordem cronológica, foi sendo fundada a imprensa nestas localidades: em Antonina, em abril de 1872, com o aparecimento do “Antonina”; em Morretes, com a publicação do “Povo”, em 1879; em Castro, com a criação do “Eco dos Campos”, em 1883; na Lapa, em 1887; em Campo Largo, também em 1887, com o “Guaíra”. Antes, Rocha Pombo nos informa, minucioso e fiel come sempre (sua virtude mestra), que houve outros periódicos em Curitiba e Paranaguá, cidade na qual surgiu em 1870 o “Operário da Liberdade”, belo nome, diga-se de passagem. Cronologicamente, pois, o “Eco” foi um dos primeiros jornais a aparecerem no Paraná. Título dos mais honrosos, sobretudo pelo fato de ser Rocha Pombo seu fundador. Que não esclarece, no citado ensaio, esse aspecto. Hebdomadário, quinzenal, mensal? Ignoro-o também. Nada nos diz, por exemplo, num trecho interessante, ao evocar carinhosamente um castrense ilustre, hoje totalmente olvidado, inclusive nessas famigeradas placas de rua, mais feitas, em geral, para bajular politicóides ou industriais recém-chegados do que para cultuar os valores da terra. Aludindo a Antônio José de Madureira, observa: “A mais vasta erudiçãO Centenário da Imprensa de Castroo histórica que temos conhecido naquela terra. Era natural de Castro e faleceu ainda moço, em 1890. Na geografia geral era versadíssimo. Espírito aberto às grandes ideias, muito concorreu para a fundação do primeiro jornal que se publicou em Castro, em 1883”. É tradição que o “Eco”! foi obra dele, Rocha Pombo. Isso aliás se registra no estudo do “Castro-Jornal”, já mencionado. Mas temos ainda o depoimento, à falta desse exame pessoal do periódico, do eminente ensaísta Nestor Vitor. São interessantes as revelações no terceiro volume de “Obra Crítica”, publicada pela Fundação Casa de Ruy Barbosa. Testemunha: “Sou paranaguaense, pois, mas já estava Rocha Pombo de residência em Castro, isto é, em pleno Campos Gerais, quando nos correspondemos pela primeira vez. Voltando eu de Curitiba, onde fora prestar meus primeiros exames secundários, alguém me proporcionou a leitura de um número do “Eco dos Campos”, que o meu patrício, bem moço ainda, mas já ilustre em nossa terra, então redigia. “Outra citação útil: “(. . .) ele casara-se em Castro, lá no centro do Paraná, com a senhora que vem sendo sua admirável companheira até hoje”. Lemos ainda: “(...) lá mesmo em Castro, onde até então não se tinha publicado um jornal, ele, o renunciador fingindo, fora logo criando o “Eco dos Campos”, pobre hebdomadário muito mal impresso, muito mal paginado, como era natural onde nem verdadeiros tipógrafos se encontrariam, mas também não era para exigir-se maior prodígio em tal sentido”. Comente-se — o jornal, analisado assim rapidamente, ora semanal. Uma proeza naqueles idos, mesmo descontando-se a falta de outras formas de comunicação. O notável crítico dá mais algumas contribuições para a história do jornalismo castrense nesse estudo “Rocha Pombo no Paraná”. Vejamos: “Com tudo isso, o “Eco dos Campos” parecia querer significar que Pombo tomava Castro por um teatro para que pelo menos todas as atenções do Brasil se voltassem”. Finalmente, esta afirmativa sobre o Rocha Pombo jornalista: “A existência do “Eco dos Campos” parecia, ao contrário, verdadeiro milagre; era aparentemente um sacrifício quase estúrdio, na sua falta de espírito prático”. O estudo de Nestor Vitor será a única referência ao jornalzinho do historiador, folha precursora de inúmeras outras que o céu de Castro viu subir e morrer? Devem existir várias, questão de pesquisa. O importante, contudo, é trabalhar, ver se encontramos uma coleção ou algum número desgarrado desse “Eco dos Campos”, fascinante leitura hoje. Minha tarefa está feita, embora incompletamente — chamar a atenção para a efeméride de alto sentido cultural. O resto deixo por conta dos intelectuais da terra do poeta e jornalista João Carvalho de Macedo, ora agrupados neste intrépido navio denominado “CAMBUI”, o qual comentarei no próximo artigo, dentro de minhas possibilidades.

MACEDO DANTAS

CASTRO - 15 - DE AGOSTO DE 1983 CAMBUÍ

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